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A Nossa Gente A vida em quatro estações
A. Cunha e Silva Aos 68 anos, o professor fala das suas paixões, da música à fotografia, passando pela pintura e pela escrita. A. Cunha e Silva, o mais velho de quatro irmãos, nasceu em 1941 na casa da sua avó materna, Rua Óscar da Silva, em Leça da Palmeira, no seio de uma família pobre. Uma semana depois foi viver para Matosinhos, na zona entre as ruas França Júnior e 1º de Dezembro. “Costumo dizer que sou um leceiro da Região Demarcada da Amorosa”, diz, em tom de brincadeira. A sua infância foi muito marcada pelo pai, alfaiate, que tocava violino. “Na perspectiva do meu pai, frequentar o Conservatório de Música do Porto era aquilo que mais lhe agradaria que eu fizesse. Não foi aquilo que mais me agradou fazer. Aquilo que eu gostava mesmo, mesmo, mesmo, era de ter sido corredor de bicicleta. O meu pai tinha sido ciclista. O meu avô foi um dos pioneiros da Volta a Portugal. Eu sentia, de alguma maneira, que era o herdeiro dessa pedalada. Tive pena. Acabei por ser empurrado para a música, mas isso não quer dizer que tenha feito o meu percurso na música contra a minha vontade. Não o fiz. Assumi. Era muito jovem”, recorda. Aos 14 anos, Cunha e Silva já tocava como aprendiz na Orquestra Sinfónica do Porto. “Este factor idade, 14 anos, é muito importante, porque define-nos. Já estava no percurso qualquer coisa que se veio a revelar depois. Fiz o meu percurso dentro da orquestra, desde chefe dos segundos violinos, solista suplente, solista da Orquestra Sinfónica do Porto. A primeira parte deste percurso como músico podemos situá-la aqui, entre a Orquestra Sinfónica do Porto e o Quarteto de Cordas da Cidade do Porto. Depois parti para o ensino, como instrumentista, e ocupei lugares vários no Conservatório de Braga, fui professor de violino no Conservatório do Porto até ter chegado ao lugar de Director do Conservatório”, revela. Aí desempenhou funções até atingir a idade da reforma. “O ensino era uma coisa que me preenchia muito. A minha relação com os meus professores nunca foi muito boa. Havia sempre qualquer coisa de marginal. Então, quando eu parti para o ensino, parti com essa ideia muito fixa, de tentar mudar o feitiço contra o feiticeiro. Ser um professor muito generoso e me entender com os alunos. Isso eu consegui”, afirma. Fotografia As viagens pelo país e pelo mundo levaram Cunha e Silva a interessar-se pela fotografia, pintura e literatura, a visitar as galerias de exposições. Por volta dos 40 anos, Cunha e Silva passou a dedicar-se à fotografia, paixão a que se dedicou durante dez anos: “Ganhei alguns prémios fotográficos enquanto as imagens eram bonitas e aceitáveis. Quando entrei no campo da fotografia surrealista ou até mesmo abstracta, os meus trabalhos começaram a ser recusados. A minha imagem fotográfica deixou de interessar ao mercado”.
Pintura A determinada altura da sua vida, Cunha e Silva foi alvo de uma doença que lhe afectou a audição, principalmente no ouvido direito. “Tinha um ruído dentro da minha cabeça, que equivalia a uma fábrica a trabalhar”, descreve. A melhor forma que encontrou para resolver a angústia que sentia foi “pegar num lápis e começar a desenhar”. “A minha introdução à pintura vem pelo aparecimento de um factor negativo ligado ao meu problema de audição. Fiz algumas exposições. Embora eu não seja uma pessoa formada pela Escola de Belas Artes, a minha mão direita tem toda a estrutura de uma mão preparada para fazer pintura ou desenho, porque a minha mão direita corresponde ao trabalho de funcionamento do arco (do violino) e é muito flexível”, esclarece. “Como eu já trazia um universo vindo da fotografia com algum surrealismo e alguma aura abstracta, o universo da pintura vive desse imaginário”, salienta.
Literatura A. Cunha e Silva conheceu e trabalhou com Joaquim Queirós, director do “Matosinhos Hoje”, em actividades culturais do Orfeão de Matosinhos. Em finais dos anos 60, Joaquim Queirós encomendou-lhe “o sermão sobre as festas”. Aí, começa o seu trabalho de cronista dos acontecimentos culturais: “Fiz várias leituras de situações ligadas à música, à pintura, o enquadramento de vários acontecimentos culturais ligados a Matosinhos. Hoje, vivo diariamente da escrita. Considero-me um estudioso da minha terra”. O projecto “Lendário de Matosinhos” é exemplo disso. Trata-se de uma parceria “de irmãos” com o pintor Alfredo Barros, que consiste em reunir em dez livros cerca de 50 histórias infantis contadas a partir de factos históricos de Matosinhos, o que implica um grande trabalho de investigação. Escrever para crianças não é tarefa fácil. É preciso imaginação, mas não só. “Nas histórias de crianças, é muito útil acrescentar um ponto, porque é abrir mais uma janela para o universo imaginário. Para escrever para crianças, tenho que me baixar ao nível delas”, sublinha. Aos 68 anos, e depois da música, da fotografia, da pintura e da literatura, Cunha e Silva assume-se como “uma espécie de formiguinha”, mas com “um ritmo equilibrado”. No entanto, sente que está a chegar ao “fim de um conjunto de actividades”, porque “o somatório de trabalhos que tenho para publicar, e que são muitos, vai preencher o resto dos meus dias”.
Por:
Dulce Salvador
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