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Arquivo: Edição de 06-09-2006

SECÇÃO: Sociedade


MH visitou bairros sociais premiados pelo Instituto Nacional da Habitação
Também é bom viver em bairros da Câmara

Pessoas satisfeitas e felizes na sua nova casa. A qualidade das construções municipais tem subido a olhos vistos e quem beneficia são os cidadãos que, de um dia para o outro, vêm a sua vida ganhar um novo sentido.
Quando se fala de bairros sociais a maioria de nós "torce o nariz". Por norma são complexos habitacionais associados a barulhos, desavenças e alguma degradação. No entanto, essa imagem é apenas uma miragem em vários dos bairros da Câmara Municipal de Matosinhos. A preocupação com a qualidade da construção é cada vez maior. E isso acaba por se reflectir na vivência que o próprio bairro tem.
O Matosinhos Hoje foi a três desses bairros tidos como exemplares. Recentemente inaugurados, guardam ainda um ar novo e limpo. Orgulhosos da nova morada, os seus habitantes tudo fazem para assim os manter. São três exemplos de bairros camarários onde é bom viver e onde as pessoas se sentem bem e felizes. O Instituto Nacional da Habitação (INH) premiou-os pela qualidade de construção. Os seus habitantes aprovam e premeiam-nos pela felicidade que trouxeram às suas vidas.

Conjunto Habitacional do Telheiro

A aparência do Conjunto Habitacional do Telheiro, em S. Mamede de Infesta, deixa-nos, num primeiro momento, a pensar se estaremos mesmo num bairro camarário. Isto porque não encontramos os habituais blocos de apartamentos. Antes, vemos um conjunto de vivendas geminadas harmoniosamente integradas na envolvente. O sossego é grande: não há música alta, não se ouvem as pessoas... um autêntico paraíso. Cada casa tem uma entrada independente, sendo que, na grande maioria, têm mesmo direito a um pequeno jardim. As ruas estão irrepreensivelmente limpas e as paredes não têm qualquer sinal de vandalismo. São 44 fogos, ao todo, desenhados pelo arquitecto Manuel Correia Fernandes. Um complexo que o INH premiou em 2003 distinguido-o com o Prémio de Promoção Municipal.
Quem não poderia estar mais de acordo com este galardão é Manuel Teixeira. Veio para este complexo com a sua inauguração e está muito satisfeito com a mudança. "Antes, vivia numa ilha, no Seixo", contou-nos. "Não tínhamos condições de viver daquela forma. Tanto que acabamos todos por vir morar para aqui." A antiga casa era já muito velha. "Estava toda a cair e, ainda por cima, não tínhamos casa de banho." Condições que não eram dignas para um ser humano.
Num dos vários levantamentos que as técnicas da Câmara Municipal de Matosinhos fizeram no terreno acabaram por também tomar conhecimento das más condições de habitabilidade em que se encontravam Manuel Teixeira e os seus vizinhos. "Viram a casa e disseram-nos que iriam ajudar." E assim foi. Ainda foram ponderados outros destinos, mas Manuel Teixeira acabou por ser colocado no Telheiro.
A primeira impressão que teve da sua nova morada não poderia ser melhor. "Fiquei muito contente", confessa-nos. "Era muito diferente do que eu estava habituado a ver noutros bairros. Dá um outro sossego: basta ter uma entrada individual para cada morador." Um novo lar que deu um novo alento na vida deste matosinhense. "Foi um dia inesquecível aquele em que recebi as chaves da nova casa. Foi muito bom."
Depois da emoção inicial, veio o dia a dia. E tudo tem corrido pelo melhor. "É um local muito sossegado, tanto de dia, como de noite. Não temos qualquer tipo de problemas", salienta. Para além disso, os moradores têm brio no local onde moram. "As ruas estão sempre todas limpas porque nós mesmo fazemos questão de as manter assim. Vamos limpando para não termos lixo à porta." Um cuidado que depois se traduz num bairro exemplar.
Emília Neves também concorda que este bairro é exemplar, mas a mudança de hábitos que provocou a troca para a nova realidade faz com que não esteja totalmente satisfeita. "Estava habituada ao meu ambiente, à minha vizinhança e quando me mudei para cá acabei por deixar isso tudo. Senti-me muito sozinha". Apesar disso, nada tem a apontar à casa que ocupa. "É muito boa." Para além disso, esta moradora destaca igualmente o sossego do local. "Isto é uma maravilha. Por aquilo que vemos noutros locais... nem tem comparação. Isto até é sossego a mais", graceja. Também a vizinhança não é motivo de reparo. "É tudo boa gente", garante.

Conjunto Habitacional da Seara

Mudamo-nos para um outro bairro. Agora estamos em Matosinhos. Subimos a Rua da Seara rumo a mais um complexo habitacional premiado pelo INH. A aparência cuidada não deixa nada a desejar ao de S. Mamede. Os espaços verdes estão impecáveis e o sossego é notório. A fisionomia do bairro é que já é diferente. São 12 blocos de apartamentos que albergam 132 famílias. Recebeu, em 2005, a Menção Honrosa de Promoção Municipal do INH. E também aqui os habitantes dão nota positiva. A arquitectura - que, num primeiro momento, levantou algumas reticências - é agora apreciada. Bem como a qualidade das casas. Novos lares que deram uma outra alegria a quem vivia com dificuldades.
Rosa Barros era um desses casos. Vivia ali bem perto numa casa muito pequena e onde quase chovia tanto no interior como no exterior. "Tinha esses problemas todos", afirmou-nos. "Ainda gastei dois mil euros em obras. Mal sabia que ia ter uma casa nova." Depois de várias visitas das técnicas camarárias, Rosa Barros ficou a saber que teria direito a uma casa camarária.
O dia em que recebeu as chaves da nova casa foi inesquecível. No entanto, o primeiro impacto foi... estranho. "A primeira vez que vi o bairro fiquei de pé atrás. Mas acho que foi de não estar habituada. Porque hoje gosto muito da minha casa." Para além de outras condições, Rosa Barros deixou de ter outras preocupações. "É muito bom estar a chover e não estarmos sempre a olhar se a água nos vai entrar porta dentro ou entrar pelo tecto."
Quanto ao local, também nada a reparar. "Gosto do local e não tenho qualquer tipo de problema: dou-me bem com toda a gente." A integração no novo espaço acabou por ser facilitada pelo facto de a grande maioria das pessoas já se conhecerem. "A minha vizinha é a mesma que da minha antiga casa", confirmou-nos Rosa Barros. "São pessoas que já conhecemos há muitos anos e com as quais continuamos a conviver."
A única tristeza que esta matosinhense guarda é o facto da sua mãe não ter tido tempo para gozar mais a nova casa. "Viemos para cá em Janeiro e ela faleceu logo em Fevereiro. Ela aqui é que estava bem na vida. Mas, Deus quis assim." Apesar disso, a vinda para o Bairro da Seara foi um momento de alegria na vida de Rosa Barros. "Há sempre quem proteste. Nem que não seja por ter de pagar a renda. Mas eu não tenho nada de mal a dizer. Não choro o dinheiro que dou de renda, porque sei que estou bem melhor do que estava antes."
Também melhor que na anterior habitação está João Lopes. Para além da casa ser pequena, a deficiência motora que possui fazia com que cada porta, cada degrau fossem um enorme obstáculo a ultrapassar. A saída de casa era outro dos problemas. "Tinha sempre que estar à espera que alguém me fizesse esse favor. Estava sempre dependente." Uma situação que mudou completamente quando passou para o outro lado da rua, para uma das casas do Bairro da Seara. A Câmara de Matosinhos preparou-lhe a casa de forma a que não tivesse barreiras que impedissem este matosinhense de ser autónomo. "Estou muito mais independente porque consigo movimentar-me sem obstáculos. Assim, quando quero sair não tenho de estar à espera que alguém de ajude. Estou muito bem aqui. Só pedia para durar mais dez aninhos para gozar a minha casa."
Aliás, João Lopes gostou logo da sua casa mal a viu. "Fiquei encantado. Alguns diziam mal das janelas pequenas, que pareciam as gaiolas dos pombos. Mas, depois de verem as casas por dentro, praticamente todos mudaram de opinião." Hoje, a grande maioria está satisfeita. "Não há problemas... não há barulhos e é um bairro sossegado. Cada um mete-se na sua vida e não arranja problemas com os vizinhos." Outro dos aspectos positivos do realojamento neste bairro foi o facto de muitos dos seus novos habitantes virem de casas ali bem de perto. "Eu vivo aqui na zona quase há quarenta anos. Consegui manter as mesmas amizades que tinha e consegui melhores condições para viver. Só posso estar satisfeito." Uma nova alegria de viver que não tem preço para João Lopes. "Só a independência que ganhei já é tudo."

Conjunto Habitacional do Monte Espinho

Seguimos caminho para o bairro galardoado mais recentemente: Monte Espinho. Também aqui a disposição das habitações foge ao que habitualmente esperamos de um complexo habitacional deste tipo. As 107 habitações estão distribuídas por 27 edifícios, todas com entradas individuais. As do rés-do-chão possuem mesmo espaços ajardinados. Menos de um ano depois de ser inaugurado, o Conjunto Habitacional do Monte Espinho recebe o Prémio INH de Promoção Municipal.
E a qualidade habitacional que demonstra justifica o prémio. De construção muito recente, o bairro ainda conserva o aspecto novo e imaculado. Os novos moradores adaptaram-se bem à nova realidade e mostram-se satisfeitos em morarem ali. É outros dos complexos habitacionais onde o sossego também mora.
Um local diferente daquele onde Maria Celeste Correia estava habituada a viver. "Não tinha muitas condições. Morava por baixo de um outro inquilino e não tinha grande tiragem de ar. Só tinha uma pequena janela", salientou ao Matosinhos Hoje. "Depois, era muito pequena: só tinha um quarto, uma sala e uma cozinha. E a cozinha ainda tivemos de ser nós a fazer, porque senão nem isso tínhamos. Era uma miséria". Condições das quais a autarquia matosinhense teve conhecimento. "Foram lá ver as condições que tinha e acabaram por me dar esta casa."
O dia de receber as chaves da nova casa é muitas vezes recordado. "Fiquei muito contente. Gostei muito da casa. Gosto mesmo de estar aqui." Isto porque a nova casa veio trazer também uma nova vida a Maria Celeste Correia. "Tenho outras condições. Já podemos andar melhor. E ainda mais: já temos casa de banho, coisa que na antiga casa não havia."
Agora vive satisfeita no Bairro do Alto Espinho. "Gosto do bairro. As pessoas são óptimas. Não tenho nada a dizer da minhas vizinhas. Na minha opinião, este é o bairro da câmara mais sossegado do concelho." Há quem lamente somente o facto de ter deixado os locais onde sempre moraram par ir para ali. Mas não foi o caso de Maria Celeste Correia. "Vivi na minha antiga 18 anos. Mas não me arrependo em nada de ter vindo para cá. Sinto-me alegre por ter uma casa com condições para dar aos meus. A minha filha nunca tinha tido um quarto só para ela e agora tem-no."
Maria Emília Nora, por seu lado, mudou-se para o Alto Espinho principalmente porque a saúde não a deixava subir as escadas de acesso à casa antiga. "Não podia mesmo subir as escadas e acabaram por me arranjar aqui esta casa nova". Actualmente, mora num rés-do-chão onde é mais fácil a sua movimentação na cadeira de rodas. "A casa é muito boa" concorda. "Tem melhores condições para eu viver". No entanto, Maria Emília Nora só se queixa de uma coisa: a renda. "Pago duzentos euros que, para mim, é muito." Tirando isso, até está satisfeita na sua nova morada. "O bairro é sossegado e bonito. Se não fosse a renda alta estava totalmente satisfeita."
Vozes satisfeitas com a nova vida que puderam encontrar nos bairros sociais camarários. Realidades que contrariam a ideia de que é mau viver em casas da câmara. Pelo menos nestes três conjuntos habitacionais, a qualidade das casas é alta, bem como o grau de satisfação de quem nelas mora. É que, afinal, também é bom viver em bairros da câmara.

Prémios do INH atribuídos a bairros camarários

Prémio INH - Promoção Municipal
1999: Conjunto Habitacional da Cruz de Pau (Matosinhos)
2000: Conjunto Habitacional do Chouso (Santa Cruz do Bispo)
2003: Conjunto Habitacional do Telheiro (S. Mamede de Infesta)
2006: Conjunto Habitacional do Alto Espinho (Leça da Palmeira)

Menção Honrosa
- Promoção Municipal
1999: Conjunto Habitacional da Senhora da Hora
2005: Conjunto Habitacional da Seara (Matosinhos)

Menção Honrosa - Promoção Privada
2004: Conjunto Habitacional das Laranjeiras (S. Mamede de Infesta)

Menção do Júri - Promoção Municipal
1999: Conjunto Habitacional de Sendim (Guifões)
2001: Conjunto Habitacional do Padrão (Senhora da Hora)
2004: Conjunto Habitacional do Estádio do Mar (Senhora da Hora)

Menção do Júri - Promoção Privada
2003: Conjunto Habitacional da Bateria (Leça da Palmeira)


Palavra de morador

"Era muito diferente do que eu estava habituado a ver noutros bairros. Dá um outro sossego: basta ter uma entrada individual para cada morador."
Manuel Teixeira, 62 anos (Conjunto Habitacional do Telheiro)

"Isto é uma maravilha. Por aquilo que vemos noutros locais... nem tem comparação. Isto até é sossego a mais."
Emília Neves, 64 anos (Conjunto Habitacional do Telheiro)

"A primeira vez que vi o bairro fiquei de pé atrás. Mas acho que foi de não estar habituada. Porque hoje gosto muito da minha casa."
Rosa Barros, 49 anos (Conjunto Habitacional da Seara)

"Estou muito bem aqui. Só pedia para durar mais dez aninhos para gozar a minha casa. Só a independência que ganhei já é tudo."
João Lopes, 58 anos, (Conjunto Habitacional da Seara)

"Vivi na minha antiga 18 anos. Mas não me arrependo em nada de ter vindo para cá. A minha filha nunca tinha tido um quarto só para ela e agora tem-no."
Maria Celeste Correia, 42 anos (Conjunto Habitacional do Monte Espinho)

"A casa é muito boa. O bairro é sossegado e bonito. Se não fosse a renda alta estava totalmente satisfeita."
Maria Emília Nora, 70 anos (Conjunto Habitacional do Monte Espinho)

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Edição de 16-06-2010
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