Matosinhos Hoje

Imprimido em 03-09-2010 3:36:37
Jornal Matosinhos Hoje
Edição de 06-10-2004
Versão original em: http://www.matosinhoshoje.com/index.asp?idEdicao=173&id=9209&idSeccao=1929&Action=noticia

SECÇÃO: Opinião

O dr. Aníbal
Num dos últimos sábados fui convidado para ir testemunhar uma homenagem a um grande cidadão, embora pequeno no tamanho, mas enorme no intelecto e no seu sentido de humanismo. Tratava-se do descerramento do busto do dr. Aníbal Belo, no jardim de sua casa, em Ponte de Lima. Não numa praça pública como ele merecia, mas na sua casa, debaixo das acácias e do abacateiro. O mestre Ribatua com as suas mãos acariciou a face e a cabeça do seu amigo e fez um retrato fiel do que ele fora em vida. Colocou-o ali, na sua casa, com o seu habitual sorriso em face redonda para quem ele entre agora e ao longo dos tempos. Será ele que dará as boas-vindas a quem entrar aquela porta que ele tantas vezes abriu aos seus amigos.
Houve discursos e lágrimas. Mas também houve silêncios e eu fui um dos intérpretes de nada dizer. Primeiro porque as minhas palavras seriam coisa sem importância para a alta valia do momento, por outro, sobretudo, porque pretendia ficar em recolhimento a lembrar aquele homem de passo apressado pelas ruas de Matosinhos, de banco em banco, levando na sua pasta a felicidade de muita gente.
Recordei o seu gabinete notarial que, como dizia o prof. Salvato Trigo, o gabinete de um notável. Naqueles metros quadrados, em cada acto, em cada escritura, nascia naturalmente sempre um amigo. O notário notável que foi o dr. Belo tinha sempre algo para acrescentar em palavras, que não podendo ser escritas nos documentos ficavam sempre na memória dos contratantes: aos que vendiam porque precisavam de vender, uma palavra de esperança; aos que comprava porque podiam comprar, uma palavra de felicitação; aos jovens que adquiriam casa, uma expressão de esperança no futuro. E sempre tudo selado com um sorriso e se possível com uma frase sua que tinha a marca de um sinete. Para todo o tempo o guardar, na caixinha da intimidade de cada um.
E como não bastasse esse seu comportamento dentro das paredes do notável notário e seu deambular pelos gabinetes bancários das grandes decisões, ainda tinha tempo para os seus amigos, para os seus passeios, para as tertúlias e das quais era o principal animador, para os seus livros e para os seus escritos, deixando-nos uma "Carta de Marvão" tal como Fernão Lopes "A Crónica de D. João I".
Despedi-me ao fim da tarde de Subportela, pertinho do rio Lima e fui junto do busto despedir-me daquele sorriso e ao transpor a porta de saída olhei para trás e aquele olhar fitava-me. Certamente pela última vez.
Como seria a humanidade se houvesse por aí mais belos como este Aníbal foi?

Por: Joaquim Queirós

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